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Uma pessoa deveria, pelo menos todos os dias, ouvir uma pequena canção, ler um bom poema, ver uma bela imagem e, se possível, dizer umas poucas palavras sensatas. (Goethe)
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terça-feira, 12 de março de 2013

Natureza




É preciso desformar o mundo: Tirar da natureza as naturalidades

Manoel de Barros

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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ainda estavam verdes as estrelas



Ainda estavam verdes as estrelas
quando eles vinham
com seus rorejados de lábios.
Os passarinhos se molhavam de
vermelho na manhã
e subiam por detrás de casa para me
espiarem pelo vidro.
Minha casa era caminho de um vento
comprido comprido que ia até no fim do mundo.
O vento corria por dentro do mundo
corria lobinhando – ninguém
não via ele
com sua cara de alma. 

Manoel de Barros

terça-feira, 20 de março de 2012

...ser árvore



Um passarinho pediu a meu irmão para ser a sua árvore.
Meu irmão aceitou ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.



Manoel de Barros
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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Bom era caminhar sem dono


Bom era caminhar sem dono
na tarde
com pássaros em torno
e os ventos nas vestes amarelas

Não ter nunca chegada
nunca optar por nada.
Ir andando pequeno sob a chuva
Torto como um pé de maçãs.


Manoel de Barros


Figura: galeria.colorir.com
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sábado, 29 de agosto de 2009

Gorjeios



Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
Inclui a sedução,
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

Manoel de Barros

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Com aquela sua maneira


Com aquela sua maneira de sol entrar em casa
E com o seu olhar furado de nascentes
O menino podia ver até a cor das vogais –
Como o poeta Rimbaud viu.
Contou que viu a tarde latejar de andorinhas.
E viu a garça pousada na solidão de uma pedra.
E viu outro lagarto que lambia o lado azul do
silêncio.
Depois o menino achou na beira do rio uma pedra
canora.
Ele gostava de atrelar palavras de rebanhos
diferentes
Só pra causar distúrbios no idioma.
Pedra canora causa!
E um passarinho que sonhava de ser ele também
causava.
Mas ele mesmo, o menino
Se ignorava como as pedras se ignoram.

Manoel de Barros

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O PROVEDOR




Andar à toa é coisa de ave.
Meu avô andava à toa.
Não prestava pra quase nunca.
Mas sabia o nome dos ventos
E todos os assobios para chamar passarinhos.
Certas pombas tomavam ele por telhado e passavam
as tardes freqüentando o seu ombro.
Falava coisas pouco sisudas que fora escolhido para
ser uma árvore.
Lírios o meditavam.
Meu avô era tomado por leso porque de manhã dava
bom-dia aos sapos, ao sol, às águas.
Só tinha receio de amanhecer normal.
Penso que ele era provedor de poesia como as aves
e os lírios do campo.

Manoel de Barros – do livro Ensaios Fotográficos
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