E como eu tivesse que sair do escritório
e o rádio tocasse o adágio do Concerto para Violino de Mendelssohn
decidi deixar ligado o aparelho
embora ninguém estivesse ali para apreciar o que se ouvia.
Deixei os livros, o computador, os objetos na estante,
/as canetas, grampeadores, tesoura, folhas de papel em branco,
deixei tudo entregue
à responsabilidade musical de Mendelssohn.
Quando voltei daí a dez minutos
todos os objetos, absolutamente todos,
olhavam-me agradecidos
e até na paisagem da janela
havia uma densa, muda e imponderável melodia.
Affonso Romano de Sant'Anna
quinta-feira, 5 de abril de 2012
terça-feira, 20 de março de 2012
...ser árvore
Um passarinho pediu a meu irmão para ser a sua árvore.
Meu irmão aceitou ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
Manoel de Barros
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Laranja seleta
Páginas marcadas em um livro de poesia...
PÁGINA 28
RIBEIRÃO DO OURO
atravessar o ribeirão
pulando entre as pedras é fácil
difícil é tirar aquelas pedras do lugar
viver é tirar pedras do lugar
recordar é tentar colocá-las de volta
• • •
velha infância que carrego
bato no peito e pergunto:
tem alguém aí?
quantos meninos correm dentro de mim?
PÁGINA 44
CARINHO
o que esse
band-aid
tá fazendo aí?
• • •
nada de grandes gestos
nada de flores
ou versos apaixonados
mas ir todas as manhãs na padaria
comprar pão quentinho
pra você
nem que seja só na imaginação
PÁGINA 110
a flor do pequi
às vezes
é utilizada
na confecção de poemas
como este
PÁGINA 113
o flaboyant
da casa da fazenda
enraizou em mim
celulose e veias
se entrelaçando
por isso
nos rabiscamos
trocamos de casca
florimos
PÁGINA 117
sim, sou árvore
não, não sou árvore, ainda
me falta o tronco
o caule-corpo
os ossos lenhosos
as carnes firmes
me falta desenraizar
PÁGINA 139
a poesia é o alimento
do espírito
bobagem
espírito gosta mesmo
é de comer
pombinha no espeto
Nicolas Behr
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domingo, 12 de fevereiro de 2012
SOMENTE UM SONETO
Tece-se a vida em mil fios
Que são, decerto, invisíveis,
A prender-nos como filhos
De um incerto buscar.
Há que avaliar cada fio
Com rigor de artesão,
Que traz, na palma da mão,
O segredo da trama certa.
É nessa silente tarefa de buscar,
Para a trama, seu fio,
Que reside o desafio.
Para que surja o bordado
Que junte o sonho com a vida,
Não é todo fio que presta.
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domingo, 1 de janeiro de 2012
Classificados
Troca-se tudo:
- criado-mudo e seu recheio de cartas superadas,
flores secas, novenas mal-sucedidas,
receitas para emagrecer;
- colchão gasto do lado direito;
- instrumento que só toca dó maior;
- natureza-morta,
onde frutas se combinam nostálgicas
sobre toalha xadrez;
- campainha que soa apenas quando não se espera
e nunca anuncia quem se quer;
- pilhas de revistas que insinuam
que o mundo já foi melhor;
- livros que é preciso ter,
mas que nunca foram lidos;
- bibelôs que empoeiraram olhando coisa alguma;
- terço incompleto, que perdeu seu Deus final.
Aceita-se em troca,
pequena pipa de papel-de-seda,
que voe alto o bastante para enxergar a terra azul,
que seja capaz de romper nuvens,
bolinar sonhos,
driblar tempestades e beber fantasias.
Feito o trato, o proprietário assinará documento,
garantindo o caráter irrevogável da transação.
Esse deve ser emitido em seu próprio nome:
Passado.
Flora Figueiredo (Amor a céu Aberto)
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- criado-mudo e seu recheio de cartas superadas,
flores secas, novenas mal-sucedidas,
receitas para emagrecer;
- colchão gasto do lado direito;
- instrumento que só toca dó maior;
- natureza-morta,
onde frutas se combinam nostálgicas
sobre toalha xadrez;
- campainha que soa apenas quando não se espera
e nunca anuncia quem se quer;
- pilhas de revistas que insinuam
que o mundo já foi melhor;
- livros que é preciso ter,
mas que nunca foram lidos;
- bibelôs que empoeiraram olhando coisa alguma;
- terço incompleto, que perdeu seu Deus final.
Aceita-se em troca,
pequena pipa de papel-de-seda,
que voe alto o bastante para enxergar a terra azul,
que seja capaz de romper nuvens,
bolinar sonhos,
driblar tempestades e beber fantasias.
Feito o trato, o proprietário assinará documento,
garantindo o caráter irrevogável da transação.
Esse deve ser emitido em seu próprio nome:
Passado.
Flora Figueiredo (Amor a céu Aberto)
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domingo, 6 de novembro de 2011
Pequena elegia chamada domingo

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens. Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.
Hoje os montes e os rios
e as nuvens não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.
Eugénio de Andrade
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domingo, 30 de outubro de 2011
Bucólica
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