Troca-se tudo:
- criado-mudo e seu recheio de cartas superadas,
flores secas, novenas mal-sucedidas,
receitas para emagrecer;
- colchão gasto do lado direito;
- instrumento que só toca dó maior;
- natureza-morta,
onde frutas se combinam nostálgicas
sobre toalha xadrez;
- campainha que soa apenas quando não se espera
e nunca anuncia quem se quer;
- pilhas de revistas que insinuam
que o mundo já foi melhor;
- livros que é preciso ter,
mas que nunca foram lidos;
- bibelôs que empoeiraram olhando coisa alguma;
- terço incompleto, que perdeu seu Deus final.
Aceita-se em troca,
pequena pipa de papel-de-seda,
que voe alto o bastante para enxergar a terra azul,
que seja capaz de romper nuvens,
bolinar sonhos,
driblar tempestades e beber fantasias.
Feito o trato, o proprietário assinará documento,
garantindo o caráter irrevogável da transação.
Esse deve ser emitido em seu próprio nome:
Passado.
Flora Figueiredo (Amor a céu Aberto)
.............
domingo, 1 de janeiro de 2012
domingo, 6 de novembro de 2011
Pequena elegia chamada domingo

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens. Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.
Hoje os montes e os rios
e as nuvens não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.
Eugénio de Andrade
..................................
domingo, 30 de outubro de 2011
Bucólica
terça-feira, 20 de setembro de 2011
MINHA GRANDE TERNURA
Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos,
Pelas pequeninas aranhas
Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser;
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.
Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.
Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.
Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite
De um túmulo.
Manuel Bandeira
...........................................
domingo, 24 de julho de 2011
Mudança

Meu coração fecho com receio
ao desmontar a casa.
De tanta coisa, das minhas coisas
abro mão – nem titubeio.
Do tempo dotado de asa
tomo decisão sob inspeção.
Tranco angústia, emoção,
só não seguro o sono,
razão da caneta na mão.
No papel, o pensamento vaza,
se dispersa de madrugada.
Manhã marcada, uns homens de chegada.
Doutores vasculham antes de,
em poucas horas, tornar vazia
a casa. Intácto só o quintal.
Seus verdes, rosas, romã pendente.
Na sucessão, o trevo, a rodovia,
presente o sopro quente da estiagem.
A ausência dos meus olhos na paisagem,
fez falta não. Tudo sei de cor.
Olga Amorim
terça-feira, 14 de junho de 2011
Para ser grande
domingo, 29 de maio de 2011
Lua - luar
Assinar:
Postagens (Atom)



